Mergulhada em Pagu

Pagu
Por causa de uma matéria que vou fazer, estou, há uma semana, mergulhada na vida de Pagu.

Por causa desse mergulho, estou, há uma semana, à flor da pele.

Pensei em falar sobre a vida dela aqui, mas seria inútil concorrer com o Google. Então, resolvi separar algumas coisas que estou encontrando pelo caminho.

Uma delas é um trechinho do que os historiadores dizem ser primeiro romance proletário do Brasil, publicado pela Pagu em janeiro de 1933, aos (!!) 22 anos: Parque Industrial.

A burguesia combina romances medíocres. Piadas deslizam do fundo dos almofadões. Saem dos arrotos de champanhe caro. O caviar estala nos dentes obturados.
[…] Dona Finoca, velhota protetora das artes novas, sofre galanteios de meia dúzia de principiantes.
-Como não hei de ser comunista, se sou moderna?
[…] Nos jardins, os conjugues se trocam. É o culto da vida, na casa mais moderna e mais livre do Brasil”

A passagem é uma crítica às festas burguesas das quais ela mesma participava nos tempos em que frequentava a casa de Tarsila do Amaral e de dona Olívia Guedes Penteado, e reforça a teoria do Partido Comunista na época de que, para ser comunista é preciso ser proletário.

Outra passagem que eu gosto muito é:

As garotas tradicionais que todo mundo gosta de ver em São Paulo, risonhas, pintadas, de saias de cor e boinas vivas […] Com um entusiasmo de fogo e vibração revolucionária poderiam, se quisessem, virar o Brasil e botar o Oiapoque perto do Uruguai. Mas d. Burguesia habita nelas e as transforma em centenas de inimigas da sinceridade. E não raro zangam e descem do bonde, se sobe nele uma mulher do povo, escura de trabalho

De um artigo que ela publicou no dia 13 de abril de 1930, na oitava e última edição de O Homem do Povo, semanal fundado por Pagu e Oswald, com o título “As normalinhas”.

E tem um trecho em Paixão Pagu, em que ela fala da inseparável irmã mais nova, Syd:

Mas Syd cresceu. Ambicionando meus gestos, meus atos. Se plasmando em mim. Se constituindo em mim. Acreditava na minha coragem, na minha força, na minha vontade, em meu raciocínio. A minha iniciativa era a dela e me seguia procurando a personalidade aparente. Dor de punhais que se introduzem para conhecer o avesso. É difícil explicar essa espécie de prisão dolorosa. Saber que a vida, a maneira de ser, pretende ser repetida. Eu adorava Syd. Eu era infeliz e vacilante. Mas queria ser infeliz sozinha. A responsabilidade que eu sentia era um tormento diário. Eu queria estar sozinha

Acho que, em momentos de “revolução”, olhar pra trás nos inspira a continuar em frente.

Só o que não para de doer permanece na memória“, Nietzsche, citado em “Dos escombros de Pagu“, de Tereza Freire (Editora Senac).

Para ler  mais: Paixão Pagu, a autobiografia precoce de Patrícia Galvão; Croquis de Pagu, organizado por Lúcia Teixeira Furlani e Pagu vida e obra, de Augusto de Campos.

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