A autora que me deixou órfã

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Já tinha ficado alucinada com a Jennifer Egan quando li A visita cruel do tempo (post aqui!). O livro é bom, me fez pensar para poder acompanhar, é cheio de ligações que você precisa fazer sozinho para poder entender. Enfim, foge dos romances fáceis e é bom demais.

Quando disse isso a uma amiga, na hora ela me perguntou se eu já tinha lido O torreão, que chegou ao Brasil depois de A visita cruel do tempo, mas, na verdade, foi publicado antes, em 2006 (A visita cruel foi escrito em 2011).

A história gira em torno do jovem baladeiro Danny, que vai visitar seu primo-problema num castelo na Europa Oriental. Já no primeiro capítulo, somos deparados com uma história traumática ocorrida na infância dos dois e que vai permear todo o romance narrado na vida adulta deles.

Com a proposta de bancar o primo desempregado no castelo, em troca de ajuda para reformar o prédio e transformá-lo num hotel, o primo atrai Danny para o fim do mundo, onde não há TV, internet e nem sinal de celular.

Parece pouco sombrio, mas a história mistura um pouco do realismo fantástico com um suspense e algumas questões familiares (embora esse não seja o centro da narração), deixando cada capítulo mais tenso do que o anterior.

Em paralelo a isso, a autora vai narrando uma outra história, intercalada entre as histórias vividas por Danny no castelo.

Posso contar pouco, pois cada detalhe pode ser importante para juntar as peças do quebra-cabeça. E você não vai querer que eu entregue tudo de bandeja. Mas o que eu posso dizer é que li em dois dias, pirei, e, quando terminei, tive a sensação de estar sozinha, sem algo muito importante que estava comigo.

Jennifer Egan é a autora dos tipos de livros que quando acabam, deixam a gente órfã.

Pena que aqui no Brasil só esses dois títulos tenham sido lançados. Ambos pela Intrínseca. Ambos com lindas capas, e ambos ótimos presentes pra qualquer pessoa que ame ler.

R$ 29,90

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A culpa é das estrelas

 

Chorei algumas vezes com livros. Mas nunca tinha chorado de soluçar, de ficar mal mesmo, com alguma história.

Pois sempre tem uma primeira vez… Comecei a ler A Culpa é das Estrelas na livraria, à toa, esperando uma amiga. Depois de duas páginas, ela chegou. E eu TIVE que comprar o livro.

Três dias depois, numa sexta a noite, eu fiquei em casa. Queria terminar de ler, queria saber o que acontece com Hazel, uma adolescente com câncer, e Augustus, seu namorado, também doente.

Perdi a sexta a noite, perdi o alto astral, ganhei olhos inchados de tanto chorar. O final não é tão óbvio quanto você imagina, mas também não foi só pelo fim da história que eu chorei, evidentemente.

John Green conseguiu escrever uma história triste com grandes sacadas e momentos de bom humor. Claro que é o tipo de livro que a gente não pode ler em qualquer momento da vida, porque deixa a gente muito mal. Mas é bem escrito, inteligente, nada de dramalhão de novela.

E no meu caso, foi bom ter lido e chorado e sofrido. E é bom a gente olhar para outros problemas, para outras questões maiores do que as nossas. Deixa a gente menos medíocre, eu acho. Pensar que existem centenas de Hazels que vivem por aí, respirando com um cilindro de oxigênio que tem de ser levado pra cima e pra baixo, e que sabe que não tem cura e que resta pouco tempo de vida, faz a gente enxergar um pouco melhor a nossa própria existência…

E um dos vários trechos reflexivos é este aí de baixo. Um dos meus favoritos, talvez.

 

 

 

*Editora Intrínseca
R$ 29,90

Como pensar mais sobre sexo

 

Alain de Botton, um dos meus favoritos, em “Como pensar mais sobre sexo” (resenha logo logo!)

A visita cruel do tempo

 

Eu acho que estava viciada em romances e livros desses que são mais fáceis de ler. A gente lê rapidinho, entende fácil – até pra uma pessoa como eu que, a cada parágrafo se perde na história.

Foi quando, por indicação de uma amiga, eu comprei A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan. E aí eu entendi o frisson que fizeram por ela na Flip deste ano (ok, além dela ser uma autora linda e as pessoas não estarem acostumadas a essa mistura de inteligência e beleza).

Cada capítulo do livro conta uma história diferente, com um personagem diferente, em um tempo não necessariamente linear. Porém, as histórias contadas têm alguma coisa em comum. Os personagens, de alguma maneira, se cruzam, têm ou tiveram algum tipo de relação em algum momento da vida.

Do meio para o final do livro você percebe que, apesar das relações se cruzarem, e dos vários personagens que aparecem, as histórias se passam ao redor de uma única pessoa. E aí muita coisa passa a fazer sentido.

Quase como uma equação matemática, você cruza as informações e vai entendendo e descobrindo o que a autora quer dizer, já que ela não deixa nada muito claro. E esse é o barato do livro: Depende de você a história fazer ou não sentido. Quem descobre é você. Não tem leitura fácil. As coisas ficam meio subentendidas até você lembrar da história do capítulo anterior, juntar lé com cré, e, bingo!

Confesso que tive que fazer um roteiro na última página do livro, anotando os nomes dos personagens de cada capítulo que eu lia, e qual era a relação com as outras histórias.

E se você é como eu, e esquece os nomes das pessoas na vida real, fica a dica para que anote os nomes de todo mundo pra não se perder no livro também.

É um livro que te obriga a pensar. E é por isso que é muito bom.

 

*Editora Intrínseca
R$ 29,90

Amy, minha filha

Passei uma semana com Rehab na cabeça.

Impossível não martelar as músicas de Amy Winehouse enquanto eu lia a biografia dela, escrita pelo seu pai, Mitch Winehouse.

Amy, minha filha começa meio lento, passando a impressão de um pai culpado tentando mostrar o quanto foi presente na vida da filha, que teve um fim trágico.

Como as coisas na vida da cantora foram muito rápidas – o sucesso, o mergulho no fundo do poço, e o fim – logo o livro já chega na Amy Winehouse que nós todos conhecemos: a voz incrível, o sucesso meteórico e o vício, primeiro nas drogas pesadas como heroína e crack, e depois no álcool.

Em alguns momentos eu parei pra chorar, mas confesso que do meio para o final, o livro se torna repetitivo. Até porque, me parece que a vida de Amy foi uma sucessão de repetições em torno de hospitais, clínicas de reabilitações, shows nem sempre bons e a mídia em cima, o tempo todo atrás das melhores fotos, nos piores ângulos da cantora.

Por ser tudo tão repetitivo, e porque já sabemos como a história acaba, o livro cansa. Uma amiga minha – que foi, inclusive quem me emprestou o livro – definiu bem: É um livro de um pai que tem uma filha como problemas com drogas. É isso. E eu não sei se a vida dela se resume a isso, mas certamente, e infelizmente, isso sintetiza bem o livro.

O que me parece é que a vida do pai de Amy girou, por anos, em torno da recuperação e dos tropeços da filha. Parece que ele não fez mais nada além de correr atrás dela em bares, hospitais, pubs e onde quer que fosse.

Até por isso, o que eu mais gosto em biografias, que é a contextualização do momento, o que se passava na época, quais músicas faziam sucesso (no caso de uma biografia sobre uma cantora), simplesmente não existe neste livro. A história é “apenas” sobre Amy.

Me lembrou um pouco a biografia do Tim Maia, uma das minhas favoritas, onde o cantor passa boa parte da vida na tentativa (sempre frustrada) de se cuidar, cancelando shows e perdendo grandes oportunidades por causa do problema com drogas. Com a grande diferença que, neste caso, o livro escrito por Nelson Motta é uma tremenda aula sobre a música, mas, veja bem, é o Nelson Motta, que não escreve bem. A maior qualidade dele é o conhecimento sobre a música, então, me parece meio óbvio que o livro sobre Tim Maia tenha esse teor.

Enfim, depois da biografia de Amy, ela passou a ser mais querida por mim. O livro humaniza a cantora, traz a tona um problema sério – o vício em drogas – e trata como deve ser tratado: uma doença. Às vezes com cura, outras não.

 

*editora Record, R$ 29,00

Apesar de Rehab ter ficado na minha cabeça, minha música favorita dela é essa, Tears dry on their on.

O álbum, Back to Black, o segundo e último dela em vida, é quase todo inspirado na separação dela com o seu pior companheiro – Blake – com quem ela vive idas e vindas até quase o fim da vida. O maior culpado, na visão do pai, pelos vícios da filha.

O amor é f*

Sei que já falei da minha nova paixão, Nora Ephron, aqui neste post quando comprei, numa tacada só, três livros dela: Meu Pescoço é um Horror, Não me Lembro de Mais nada e O Amor é Fogo.

O fato é que eu ainda não havia terminado de ler o romance dela – O Amor é Fogo – naquela época. Estava tomada pelos ensaios dos outros dois livros e por isso só havia lido o começo do romance que a escritora publicou em 2009.

Rachel é o nome da personagem que encarna o papel da própria escritora, e é por meio dela, que Nora narra a dor do divórcio que enfrentou na vida real.

Com um filho pequeno numa mão e grávida de sete meses, Rachel descobre que o marido está tendo um caso com Thelma, a esposa de um amigo, desses casais de amigos que frequentam a nossa casa e a gente divide receitas com a mulher.

Entre o desespero da constatação e a dificuldade da separação, Rachel conta as memórias dos relacionamentos que viveu, e os diálogo com o marido, com o pai – e os relacionamentos após a morte da mãe – e a melhor amiga, Bety, que tenta descobrir com quem Thelma está tendo um caso – ela não sabe que é com o marido de Rachel e ambas especulam com quem poderia ser até Rachel enfim descobrir e esconder da amiga a vergonhosa descoberta.

No meio de uma piada e uma lágrima, a escritora passa receitas de pratos que fizeram parte de sua história. Receitas que parecem bem interessantes, diga-se de passagem. Daí o nome do livro.

O romance é divertido, apesar do tema ser pesado e a história ser real. Lembra um pouco Sex and the City, mas com um toque um pouco mais inteligente e sem a futilidade das bem resolvidas de Nova York.

Mais um que vai pra lista das dicas de presentes =)

 

*editora Rocco, R$ 26,00

A pornografia de Hilda Hilst

Num momento em que o assunto é o livro “50 tons de cinza“, da autora americana E.L. James (o primeiro livro da trilogia vai ser lançado no Brasil nessa semana, salvo engano, pela editora Intrínseca), pego carona no factual pra fazer esse post.

Ganhei o primeiro livro, “O caderno rosa de Lori Lamby“, do meu marido por recomendação de uma amiga. Ela disse que leu e ficou chocada. Eu digo mais: Tive até vergonha. É tão bom, tão sexualmente excitante e, ao mesmo tempo, tão errado, que dá até vergonha de gostar tanto do livro.

O primeiro volume da trilogia escrito pela minha conterrânea Hilda Hilst, é o diário de uma menina de oito anos, escrito em primeira pessoa, que conta histórias que unem a pornografia ao cômico, passando pelo assustador e chocante. A linguagem é unica, algo que eu nunca tinha visto antes. A autora brinca com uns trocadilhos, de maneira que só faz sentido porque é escrito por uma criança. Tem umas putas sacadas.
Além disso, as ilustrações são do Millôr Fernandes, outro espetáculo à parte.

É um livro pornográfico, que trata de sexo como algo leve, gostoso, sem culpa. Só que por uma criança. O único jeito talvez de tratar o sexo sem culpa seria por uma criança, creio eu.

A garota vive entre a fantasia e o real, às voltas com as brigas e discussões dos pais, completamente desequilibrados também.

Os outros dois livros da trilogia, “Cartas de um sedutor“, e “A obscena senhora D“, são bem diferentes. Também têm um quê de pornográfico, mas passa longe da perturbadora Lori Lamby. Confesso que comecei a ler os dois, mas ainda não terminei.

Lori Lamby é do tipo que a gente não lê no metrô, por medo da pessoa ao lado ler alguma coisa junto e a gente ficar constrangido.

Sei que o post é pequeno para tratar de uma trilogia, mas realmente a literatura é única. O estilo é individual. Nunca vi nada parecido. Meio sem palavras, literalmente.

Imagem

*Editora Globo
Ganhei de presente os três. E parei com essa de ver os preços dos presentes depois. Sinto muito.

O olé da criatividade

Vídeo inteligente pra aproveitar a sexta-feira e passar o final de semana refletindo.

A autora de Comer, Reza, Amar, Elizabeth Gilbert, falando sobre criatividade. Assista até o final, eu mesma só comecei a entender e encaixar as peças do que ela queria dizer lá pelo 15º minuto.

Bom final de semana. E olé pra vocês!

Xará de cabeceira

Acabei de ler Marina, do espanhol Carlos Ruiz Zafón. Juro que não foi (só) por causa da capa que eu comprei o livro. Já ouvi falar um bocado dele até decidir comprar.

Honestamente, essa linguagem fantosiosa não é a minha favorita. Ao invés de eu me prender, eu acabo me perdendo em tanta figura de linguagem. Mas eu respeito. Acho que a linha entre a beleza da escrita e a “viagem” é tênue, então tenho certo respeito por quem trabalha bem nessa linha, sem viajar demais.

No prefácio, o autor já avisa que Marina faz parte de uma série de três livros que ele escreveu para adolescentes. E haja fôlego pra escrever para adolescentes e vender para adultos.

O realismo fantástico dá conta desse recado. Acho que para escrever com tanta metafóra e figuras de linguagem, tem que ser muito bom mesmo, senão cai num clichê sem fim… Não foi o caso desse livro.

Ok, o autor é famoso, todo mundo diz que ele é bom, e não deve ser à toa né? Talvez escrever assim seja muito mais difícil do que aquela linguagem realista, pé no chão.

A história se passa em Barcelona, terra-natal do autor. Outro ponto legal: Quem já esteve por lá deve conseguir visualizar melhor ainda as descrições de ruas, ruelas e monumentos da cidade espanhola. Não é o meu caso, mas mesmo assim, gostei do pano de fundo. E corri pra cozinha pra fazer pão com tomate depois, mas essa é uma outra história.

Durante suas expedições explorando a cidade, o menino Óscar, que vive num internato, conhece Marina, que vive num casarão antigo com seu pai Germán. Juntos, os dois descobrem quase sem querer um grande segredo vivido há algumas décadas na cidade. E passam a explorar o fantasioso mundo das histórias.

Dá pra viajar junto. Típico livro de férias, desses pra relaxar mesmo, sabe? Se é de adolescente, nem ligo, me senti com 12 anos mesmo, fascinada pelo conto.

Vale pra presente, vale pra levar pra praia, vale pra dar uma espairecida da vida. A história te leva, não precisa de muito esforço. Mas aos desatentos como eu, cuidado: Se você não prestar atenção na trama, dificilmente chegará lucido ao final. As poucas 189 páginas parecem pesar, de tanta informação e história. Tudo se conecta, mas acontece tanta coisa… É bom ficar atento.

Fiquei ansiosa pra terminar o livro e dividir ele aqui. Mas depois que acabou, me arrependi de ter lido tão rápido. É o tipo de livro que a gente economiza, sabe? E sim, chora no final. Bravo!

*Editora Suma de Letras
Cerca de R$ 24,00

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