Esse não é mais um livro sobre um viciado em drogas

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Além daqueles livros que estão em destaque na livraria, ou no topo da lista dos mais lidos das revistas semanais – e nos deixam curiosos para saber, afinal, o que esse livro tem que faz tanto sucesso? –  e dos que têm capas convidativas – convidativa, neste caso, é um eufemismo. Tenho uma amiga que me disse uma vez, sem vergonha alguma, que comprava os livros pelas capas. Eu descobri que faço muito isso, mas não tinha coragem de assumir. Então tá aqui, publicamente: eu julgo o livro pela capa – os livros que a gente lê dizem muito do momento que estamos vivendo.

Já faz um tempo que biografias de viciados em drogas me interessam. E isso não é coincidência. É claro que alguma coisa na minha vida me leva a tentar entender o que passa na conturbada vida de alguém que vai por esse caminho. E honestamente, tenho descoberto muitas coisas que têm me ajudado muito.

Apesar de sofrer muito, esse tipo de literatura realmente me ajuda a entender muita coisa. Não faz passar a dor, mas quanto mais informação a gente tem sobre um assunto, menos difícil se torna lidar com ele.

Por isso caiu em minhas mãos a biografia do ex-jogador e comentarista de futebol Walter Casagrande. Comecei a ler ontem. Terminei hoje.

Casa Grande e seus Demônios“, escrito pelo próprio, e com co-autoria do jornalista esportivo Gilvan Ribeiro, o primeiro capítulo já é, de cara, sobre a pior fase de “Casão”: O pico do vício em drogas, o fundo do poço, quando as alucinações passaram a ser tão pesadas, que ele via demônios por seu apartamento. A mistura de heroína com cocaína, maconha, tranquilizantes e bebida alcoólica o levara ao pior dos mundos. E os detalhes não são economizados. E o leitor, por sua vez, não é nada poupado.

Quatro overdoses – uma, inclusive, na presença de um dos três filhos – e algumas tentativas de internações não foram suficientes para tirá-lo das alucinações demoníacas. Foi só quando ele sofreu o acidente de carro em 2007, que a internação compulsória lhe surtiu efeito, um ano depois.

Mas a história não se resume ao problema com as drogas. Se você gosta de futebol, vai se divertir saboreando deliciosas histórias de partidas, viagens, discussões, amizade entre Casão e diversos jogadores. E se você é corintiano, a diversão vai ser em dose dupla, vai por mim.

Falar sobre a droga nessa biografia é inevitável, porque, como em toda história de um viciado (ou ex-viciado neste caso), ela permeia a vida do protagonista. O vício não surge de um dia para o outro. A relação com a droga – ou qualquer outra substância viciante – começa muito antes da pessoa imaginar que poderá ter algum problema com ela.

Com o Casão não é diferente. O caminho maconha-bebida-cocaína-vício é religiosamente percorrido até chegar ao fundo do poço. Mas a história não se resume a isso.

O livro tem grandes histórias de bastidores, coisa que só quem conhece muito bem Casagrande poderia saber. Como, por exemplo, sua briga com Sócrates – e depois a reconciliação – ou o dia de seu casamento e como Casão fez para conquistar a mãe de seus filhos.

Enfim, esse não é mais um livro só sobre um viciado em drogas. Além dessa obsessão que temos por histórias pesadas, a obra é feita de outros fatores capazes de segurar uma boa leitura de final de semana.

 

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*Editora Globo Livros
R$ 34,90

Sampa, por Caio Fernando Abreu

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Sampa é definitivamente um caso de amor mal resolvido, sabe como? Você já amaldiçoou mil vezes a vez em que a conheceu, você já deu na cara dela, ela já deu na tua cara (vezenquando ficam marcas feias, roxuras, inchaços, cicatrizes), você já bateu forte a porta de casa jurando vingança e nunca mais voltar. Perfídia, injúria: abolerados blues. Mas voltou sempre… Diz que até o ano 2000 abre uma fenda embaixo de Sampa e engole tudo. Deus, eu preciso dar um jeito de acabar com este caso. Devolva minhas cartas e minhas fotografias, diaba.

Apesar de tudo, para sempre teu,

Caio Fernando Abreu

 

Eu tenho mania de marcar meus livros enquanto os leio. Depois de algum tempo, volto pra dar uma olhada e percebo que nem tudo o que está marcado lá continua fazendo sentido. Às vezes faz sentido nenhum. Às vezes eu marcaria outro trecho, completamente diferente. Este acima, encontrei marcado na biografia do Caio F, escrita pela Paula Dip (Para sempre teu, Caio F, da editora Record, R$ 64,90), que li no finalzinho do ano passado. Ainda faz um sentido enorme pra mim.

Amy, minha filha

Passei uma semana com Rehab na cabeça.

Impossível não martelar as músicas de Amy Winehouse enquanto eu lia a biografia dela, escrita pelo seu pai, Mitch Winehouse.

Amy, minha filha começa meio lento, passando a impressão de um pai culpado tentando mostrar o quanto foi presente na vida da filha, que teve um fim trágico.

Como as coisas na vida da cantora foram muito rápidas – o sucesso, o mergulho no fundo do poço, e o fim – logo o livro já chega na Amy Winehouse que nós todos conhecemos: a voz incrível, o sucesso meteórico e o vício, primeiro nas drogas pesadas como heroína e crack, e depois no álcool.

Em alguns momentos eu parei pra chorar, mas confesso que do meio para o final, o livro se torna repetitivo. Até porque, me parece que a vida de Amy foi uma sucessão de repetições em torno de hospitais, clínicas de reabilitações, shows nem sempre bons e a mídia em cima, o tempo todo atrás das melhores fotos, nos piores ângulos da cantora.

Por ser tudo tão repetitivo, e porque já sabemos como a história acaba, o livro cansa. Uma amiga minha – que foi, inclusive quem me emprestou o livro – definiu bem: É um livro de um pai que tem uma filha como problemas com drogas. É isso. E eu não sei se a vida dela se resume a isso, mas certamente, e infelizmente, isso sintetiza bem o livro.

O que me parece é que a vida do pai de Amy girou, por anos, em torno da recuperação e dos tropeços da filha. Parece que ele não fez mais nada além de correr atrás dela em bares, hospitais, pubs e onde quer que fosse.

Até por isso, o que eu mais gosto em biografias, que é a contextualização do momento, o que se passava na época, quais músicas faziam sucesso (no caso de uma biografia sobre uma cantora), simplesmente não existe neste livro. A história é “apenas” sobre Amy.

Me lembrou um pouco a biografia do Tim Maia, uma das minhas favoritas, onde o cantor passa boa parte da vida na tentativa (sempre frustrada) de se cuidar, cancelando shows e perdendo grandes oportunidades por causa do problema com drogas. Com a grande diferença que, neste caso, o livro escrito por Nelson Motta é uma tremenda aula sobre a música, mas, veja bem, é o Nelson Motta, que não escreve bem. A maior qualidade dele é o conhecimento sobre a música, então, me parece meio óbvio que o livro sobre Tim Maia tenha esse teor.

Enfim, depois da biografia de Amy, ela passou a ser mais querida por mim. O livro humaniza a cantora, traz a tona um problema sério – o vício em drogas – e trata como deve ser tratado: uma doença. Às vezes com cura, outras não.

 

*editora Record, R$ 29,00

Apesar de Rehab ter ficado na minha cabeça, minha música favorita dela é essa, Tears dry on their on.

O álbum, Back to Black, o segundo e último dela em vida, é quase todo inspirado na separação dela com o seu pior companheiro – Blake – com quem ela vive idas e vindas até quase o fim da vida. O maior culpado, na visão do pai, pelos vícios da filha.

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