A segunda é minha: Pequeno manual da mãe 2.0

 

Pequeno manual da mãe 2.0

Capítulo 1 – Inicializando

 

Eu sei mãe, eu sei que para você, que viajou milhas e milhas a bordo de um Fusca amarelo-ovo até Trindade, apenas com uma barraca de lona e um biquíni de bolinha no bagageiro, em busca de paisagens e cachoeiras incríveis, e um “visu massa” fica difícil entender como é possível “viajar na Internet”.

Eu compreendo que você, que viu o homem pisar na lua numa TV preto e branco, sentada no chão da sala, não consegue sacar como é possível ver as crateras do satélite pela tela de um computador ao-vivo. E que a sua geração, os baby-boomers, simplesmente não compreende que raios de geração XYZ é essa.

E eu até entendo que você faz parte de uma geração que era livre para sonhar, ouvia os Beatles e Pink Floyd na vitrola e hoje se vê perplexa diante de milhões de músicas que podem ser adquiridas na rede, de graça, e em questão de segundos.

Compreendo que para você, que lutou contra a ditadura, foi pras ruas, apanhou da polícia e quase foi presa, parece ser piada quando alguém te fala em “revolução digital”. Que raios de revolução é essa, que não exige os pés no asfalto, a voz no megafone, uma assembléia geral, e os companheiros de centro acadêmico atrás de um carro de som? Como alguém que nasceu numa sociedade democrática, votou pela primeira vez numa urna eletrônica, não sabe que diabos é um mimeógrafo ou que acha que Libelu é o nome de uma nova rede social pode falar em revolução?

Sei também que os seus amigos, que tiveram a primeira e única geração de filhos de hippies da história da humanidade, ficam chocados quando vêem a Claraluz por horas na frente do computador. Ou o Pedro Sol, criado livre, sem roupas, sem regras, inventando uma rede social cheia de códigos e normas para participar. Ou até eu, que nem tenho um nome muito hippie, mas só levava tomate e ovos cozidos pro lanche comunitário da escola construtivista lá de Campinas.

E que é esquisito achar que essa minha geração de filhos de pais hippies-comunas se auto-intitula defensora da natureza só porque participa da comunidade do Greenpeace no Orkut, ou virou sócia do S.O.S Mata Atlântica pagando uma mensalidade pela Internet e agora organizam manifestações pela rede. Mas é assim que os Cauês, Raonis, Uibirás, Moiras e Moemas se organizam, mãe, e dizem não a Belo Monte, dizem sim ao Metrô e reclamam do preço da passagem. A revolução começa na rede, desce o elevador, passa pelo porteiro e gol: Está nas ruas. A Internet só ajudou a organizar o movimento.

Mas eu sei que pra você as coisas não fazem tanto sentido assim. Sei de tudo isso. Mas até as revoluções são uma metamorfose ambulante. E é preciso acompanhá-las. Você não pode simplesmente ser alheia a essa reviravolta virtual. É uma nova era que surge, entende? Não adianta querer ficar fora dela: Ela já está dentro de você.

Certa vez, a mãe de um amigo meu foi ampliar as fotos da família. Eles haviam viajado e por isso, a máquina estava cheinha de fotos memoráveis. Ela então, se dirigiu até uma loja, entregou para a atendente o que julgava ser o chip da câmera, e pediu, sem titubear: No papel fosco, por favor.  A atendente ficou meio sem graça, houve um silêncio meio constrangedor na loja, e finalmente ela disse à mãe do meu amigo: “minha senhora, essa é a bateria da máquina… Precisamos do chip, que é onde as fotos ficam armazenadas”.

Contando essa história para um amigo de uma amiga minha que eu conheci num boteco sujo na Paulista, ficamos alguns minutos rindo dessa mãe, que devia ter pensado “se tem muitas fotos, deve ser esse compartimento maior aqui”. Logo em seguida, ele mesmo confessou ter uma história parecida. A mãe dele, quando a câmera fotográfica dela fica com a memória cheia, ela simplesmente compra outro chip, ao invés de descarregar tudo no computador e usar de novo. Ela já tem cerca de 10 chips. Sim, ela trata um chip da mesma maneira que trataria um rolo de filmes da Kodak: guarda todos.

Por isso, mãe, é que vocês precisam acompanhar essa marcha. Não podem mais ficar a mercê dessas brincadeiras da nova geração. Chega de ser motivo de chacota na Fotóptica! Vocês podem aprender a diferenciar um chip de uma bateria! São coisas muito distintas, mãe. É como comparar o Sarney com o Suplicy. Chip é chip, e bateria é bateria. Suplicy é o Suplicy, e o Sarney, bom, deixa pra lá.

Mas voltando, a rede é uma coisa das antigas, sabia? Das antigas mesmo, da época da minha avó até. Lembra daquelas revendedoras de Tapware? Elas se reuniam, discutiam as vendas, as estratégias, valores, e, não raramente, os problemas em casa, a família, os filhos… Isso era uma rede! Uma rede de pessoas com o mesmo objetivo – vender os tradicionais potinhos resistentes de plástico. Isso já era uma rede, lá atrás. Hoje ela simplesmente se virtualizou, mas a essência é exatamente a mesma.

As pessoas hoje fazem reuniões virtuais, realizam cursos virtuais, compras virtuais, e, constantemente, conhecem outras pessoas, namoram e casam pela Internet. É fantástico! É sim a revolução! A revolução dos chips, da mobilidade, das redes, da conexão, da transmídia!

O que? Me empolguei? Ok, voltemos ao fusca amarelo que te levava para Trindade. Pois bem, imagine que nesse Fusca coubessem muitas pessoas. Imagine, vai, é só um exercício. E que todas essas pessoas estivessem indo para o mesmo lugar. Tá, pode ser Trindade. E que no caminho, discussões incríveis sobre a luta armada rolassem, mas, no meio dessas discussões, algumas pessoas estariam lá apenas pra ir para Trindade e não para discutir a revolução. Então, essas pessoas falavam umas besteiras de vez em quando, que te fazia ter vontade de expulsá-las do seu Fuscão politizado.

Pois bem, o fusca é uma rede social, e todas essas pessoas lá dentro são as seguidoras dessa rede. Trindade é só o objetivo final, mas o que acontece dentro do Fusca é a verdadeira realidade. E se não fosse dentro do seu Fusca, seria em outro, talvez naquele Fusca azul do seu ex-namorado hippie.

Resumindo: O Twitter, por exemplo, é um grande Fusca amarelo cheio de gente, falando de todos os assuntos, dos mais pertinentes, aos mais desnecessários. E se você não quiser mais saber o que alguma pessoa tem pra dizer, você simplesmente deixa de segui-la, ou seja, tira ela do seu Fusca amarelo. Sacou? Essa pessoa pode entrar no Fusca azul do Décio, e continuar na estrada pra Trindade, mas no seu Fusca ela não viaja mais. Ela tá fora da sua rede, mas continua dentro da rede dela, com o mesmo destino final. Massa, né?

E isso vale para todas as redes sociais. Existem redes específicas, só para achar amigos da infância, outras para procurar trabalho, outras para discutir política – sim! O Fusca amarelo de novo! – outras para vender coisas, escutar música, arrumar namorado, amante, discutir o movimento gay, a adoção de animais, e até sem um objetivo certo, apenas para falar sobre o que você quiser.

Por tudo isso, e porque eu sei que vocês não nasceram clicando no botão do mouse, e, por conta disso, vocês dão dois cliques em absolutamente tudo, é que eu resolvi escrever esse livro. Pelo direito da Mãe 2.0. E se você não sabe o que significa 2.0, esse é mais um motivo pra você ler esse livro até o final.

 

*Quantas ideias de livros você já teve? Quantas delas você chegou a colocar no papel?
Essa é uma das ideias que eu já tive e, por insistência, comecei a escrever. Esse é o primeiro capítulo e a ideia é publicar outros por aqui. Vamos ver se eu coloco no Word…

 

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A segunda é minha: Ahhh o Paulistããno…

Uma singela homenagem aos nascidos na aniversariosa São Paulo.

Ahhhh de quantos hábitos peculiares é feito um paulistano…

Anda na garoa, sem nem perceber que tá molhando. Talvez porque já esteja acostumado, ou até porque tenha nascido meio impermeável. Têm aqueles que já desenvolveram, com o tempo, uma fina película que o protege da chuva, que brotou na pele, feita de uma combinação de fumaça e poluição.

De quantas vidas é feito um paulistano, que aos sábados deixa o carro na garagem e sai de metrô porque é cool, e aos domingos ensolarados corre no Ibira feito um cão labrador feliz.

Se faz sol já sabe até a roupa que vai usar: aquele modelito para os dias azuis. São poucas as opções.

Mas são poucos os dias azuis também. Não existe calor em São Paulo.

Se chove, continua na moda: comprou galochas de borracha personalizadas e capas de chuva coloridas, pra dar um contraste com o cinza do céu.

Ahhhh o paulistano… Insiste em falar tudo anasalado, com sotaque da Mooca, mesmo tendo nascido no Itaim. Desce do elevador já de fone nos ouvidos e quando não, cumprimenta o porteiro e o mendigo que dorme na calçada do prédio.

Demora uma hora  e meia de casa até a firma, e ainda diz que “é rapidinho”. Como é conformado, o paulistano!

Compra ingresso pro cinema antes, põe o nome na lista da balada, abastece o Bilhete Único, passa na banca pra comprar mais um guarda-chuva e segue o rumo pela Cardeal.

De quantos hábitos peculiares é feito um paulistano… Come milho sem a espiga, feijoada vegetariana e insiste em pedir chope sem colarinho e cachorro-quente com purê.

Se faz calor, faz demais. Se faz frio, é um frio du caralho. Se chove. Bem, se chove é normal…

Por isso mesmo o Paulistano não tá acostumado com o corpo de fora e, se passar uma mulher na rua de shorts, saia ou vestido, não consegue se controlar e vira o pescoço, buzina – como se precisasse de mais buzinadas nas ruas – grita, chama… Ahhh como é gentil o Paulistano diante de trajes femininos de verão.

É fã do Criolo, lê as crônicas do Xico Sá, faz ioga, mas continua xingando no trânsito. Quando tá deprê,  anda na Paulista ouvindo What’s up, aos prantos, só porque a cena tem a ver.

Deixa de pagar o condomínio, mas não perde o jogo do Curinthia. Ainda não entendeu direito todas as leis da cidade e continua entrando no banco falando ao celular e fumando nos bares.

Anda no ônibus com o iPode num bolso, o Smartphone na mão e a mochila nas costas. Mal ouve o que as pessoas falam pra ele, mas não bobeia e não passa do ponto nunca. Como é sagaz o paulistano!

Toma café da manhã na hora do almoço e almoça na hora do jantar. Faz disso um hábito na firma e esquece a hora de ir embora do trabalho. Mas no dia seguinte, lá tá o paulistano, subindo a Cardeal, de calça jeans e galocha, na garoa sem guarda-chuva.

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A segunda é minha: E por falar em Natal…

Atrasada, mas tá aí!

O peru já tava marinando de véspera. Morreu mais cedo dessa vez. Encheram de miúdos e farofa, amarraram as pernas e tacaram no forno. Eu sempre achei o ritual bizarro, mas nunca disse não pra um peru de Natal. De Natal, que fique claro, porque estamos aqui pra falar do aguardado (not) feriado cristão, onde todos se amam e se perdoam. Agradecem por mais um ano que passaram com saúde e brindam o aniversário de cristo.

 Honestamente, eu poderia muito bem passar sem essa.

As bolas vermelhas com fitilhos verdes se misturam facilmente às frutas da festa-do-caqui na qual o aniversário do Menino Jesus se transforma, anualmente, lá em casa.

Começa dois dias antes, que é o dia do aniversário da minha mãe. Ela fica nervosa, achando que não vai dar tempo de fazer tudo, convida pouca gente e sempre, eu digo, sempre, deixa de avisar que é o aniversário dela. Simplesmente diz: “Vem aqui em casa tomar uma cerveja”. Tipo dia 23 de dezembro, como quem não quer nada ou não tem quase nada pra fazer pras festas que se aproximam.

As pessoas até vão, porque ela é uma querida mesmo, mas não sabem que é aniversário dela… Aí, sempre chega um e diz “Feliz aniversário” e o constrangimento dos que não sabiam e não levaram nenhum presente é geral. Na sequência chega meu pai, desavisado da hora, sempre atrasado, e a festa começa. A festa continua. E vai. E chega mais gente. E a minha mãe – pobre aniversariante – se cansa dos convidados e quer ir embora da festa. Dela.

A mesa da sala vira roda de samba, meu pai começa a cantar desafinados versos do Chico Buarque, minha mãe fica com vergonha e quer sair da sala. Da festa. De casa. Vai até a árvore de Natal e acende as luzinhas, fazendo uma prece baixinha pedindo pros convidados maneirarem no barulho porque “o pessoal comenta depois”.

Dia seguinte, já estamos com 50% de rendimento apenas, e a casa, idem. E é dada a largada para o Natal. Coloca o aclamado peru no forno, bate as claras em neve, checa as frutas e bebe, bebe uma cervejinha porque o nosso Natal é tropical, bebê, e faz um calor de Deus na cozinha nessa época do ano.

Final do dia, 10% a menos de rendimento, tomamos um banho e a coisa melhora tipo 5%. E é dada a largada ao segundo round. No meu caso, o terceiro, porque o primeiro foi no dia anterior: Mais cerveja, um vinhozinho e um espumante perto da meia noite.

Os presentes são trocados. Isso no caso das famílias comuns. No meu, a ansiedade da família Rossi não permite a espera pela meia noite. Trocamos todos os presentes do dia 23 mesmo, junto com o aniversário da progenitora. Ou seja, meia noite, estamos bêbados e sem presente.

No dia 25 é o último set. Acordamos meio esquisitos. O fígado já não responde muito bem e chegamos a marca de 10% de aproveitamento. Aquele chorinho, que só nos permite sentarmos a mesa, repetirmos a ceia – ou o que sobrou dela – e abrirmos mais uma cerveja. Afinal, é Natal. E ninguém tá aqui pra brincadeira.

Depois do dia 25 você tem exatos 5 dias pra melhorar e aumentar o rendimento. Pois chega o Reveillon. Mas aí já é outra história…

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A segunda é minha: Pequeno manual do grande dexcolado

Em São Paulo, ou você é dexcolado, ou você tá por fora. E quem tá por fora, já sabe né? Não recebe convites pra fextas, fica de fora da pixta, é excluído do Facebook.
Mas não se desespere! Dexcolados de verdade são seguros de si e não vacilam. Perceba como:

1 – Fale coisas em inglês. No seu time, seja fun sem ser boring

2 – Use roupas de brechó. Que nem por isso precisam ser baratas

3 – Vestido com tênis de cano alto, big óculos de grau (ainda que não tenha grau nenhum), coque alto e descabelado, only for girls

4 – Tênis de cano alto, big óculos de grau (ainda que não tenha grau nenhum), camisa xadrez e barba por fazer, only for boys

5 – Se você é dexcolado, você tem um iPhone

6 – Please baby, não deixe de ter uma pinta blasé

7 – Dexcolado adora uma mochila dexcolada. Mas não usa paletó com All Star, porque isso não é coisa de dexcolado e sim de publicitário

8 – Pelo amor de Deus, não saia de casa sem o seu ipod

9 – Vá ao Studio SP. Tome uma cerveja na padaria da esquina antes. Saiba a letra das músicas que vão tocar na noite

10 – Dexcolado de verdade não deprime. Get up!

11- Faça pose, caras, bocas e biquinhos nas fotos

A segunda é minha: sobre os clichês (e desejos) do Reveillon

Pra ser bem honesta, nem me lembro exatamente das promessas que fiz nos primeiros minutos deste ano. Sei lá, mudar de casa, de cidade, ir mais à academia, ao cinema, viajar…

A cada meia noite de 31 de dezembro é sempre aquela história: Não importa qual é o ano, se é 2006, 1999, 2001, sempre exitem os breves lamentos sobre o ano que passou e depois, algumas promessas, como “neste ano vai ser diferente” ou “nunca mais olhar pra cara daquele babaca”… E a gente acorda no dia seguinte com a cabeça latejando e já burlando uma das promessas da lista, que era beber menos.

Com a idade, a gente passa a prometer coisas mais simples, por pura experiência e não por falta de repertório “vou ler mais”, “vou cuidar mais de mim” e aqueles pedidos nada palpáveis e que nem a gente sabe direito o que significa “vou me respeitar”, “vou gostar mais de mim” e bla bla bla, e mais uma rolha de champagne se estoura.

E novas fotos nas redes sociais de fogos de artifício, da galera na praia, do primeiro beijo do ano, e vai dando aquele sono na gente, misturado com a ressaca, e, de repente, você já nem lembra mais do que tanto queria pro ano que vai nascer. Já tive épocas de fazer uma lista, de tanta coisa que eu queria e já sabia que iria esquecer.

O ano-novo – e todas as possibilidades de mudanças que o 1º de janeiro pode trazer – tem esse espírito porque, claro, é um recomeço. E não deveria ser assim todo dia 1º de qualquer mês? Ou todo início de semana? Quer dia melhor pra começar uma dieta do que uma segunda-feira, o dia mundial da dieta, de qualquer mês que seja? Aliás, se for antes de janeiro, tanto melhor, cá entre nós…

Quer dia melhor pra prometer beber menos do que um sábado depois daquela sexta-feira-pé-na-jaca? Um sábado de julho ou de agosto… Sabe aquele sábado depois daquele casamento da grande amiga, em maio? Certamente teria sido um belo dia pra prometer tirar o pé do acelerador – ou da jaca.

Sempre tenho a sensação de que uma grande viagem significa Reveillon. Sempre que eu faço uma viagem legal, volto diferente, com mais fôlego, novas ideias, sensações, conhecimentos, promessas, vontades… Ora, não seria essa a mesmíssima sensação do 1º de janeiro?

Viagem é Reveillon. Voltar de férias prometendo querer ganhar mais, trocar de trabalho, ter mais tempo pra estudar e ir ao cinema, é Reveillon.

Segunda-feira é Reveillon. Sábado é Reveillon. Dias primeiros são Reveillons…
O Reveillon virou clichê por pura falta de crença nele. Precisamos de um calendário para organizar nossos objetivos, rumos, ideias, projetos. Mas não para idealizamors todos esses novos desejos. Não só nessa época do ano.

E por falar em clichê, o ano não precisa mudar. Você sim. E isso não deve acontecer só de 12 em 12 meses.

A segunda é minha: A paixão platônica e a mulher do super-homem


Eu nunca havia parado pra pensar nas mulheres dos caras por quem eu nutria uma paixão platônica. Por motivos óbvios, eu só imaginava o cara. Sozinho. Sem nenhum impedimento.

Até o dia em que, num boteco qualquer, eu conheci de perto um dos homens por quem eu era apaixonada.
Ele e a mulher dele. Ali, na mesma mesa que eu.

Confesso que passei muito mais tempo olhando pra ela do que pra ele.
O cara por quem eu passara um tempão alimentando uma paixão platônica bem ali na minha frente, e eu não conseguia parar de olhar… para a mulher dele.

Mas, porra!  Afinal, quem era aquela mulher que conseguiu o que eu até então achava impossível, que era amarrar o coração do homem que pra mim sempre fora inatingível? Como ela ousara me provar que uma paixão platônica era possível?

E lá estava ela, nem gorda nem magra, nem alta nem baixa, meio intelectual meio de esquerda, com um rosto até que bonito, mas que poderia ser qualquer amiga minha. Pior, podia ser eu mesma.

Pagamos a conta no boteco e fomos para um show. Ela foi capaz de se tornar mais real ainda, quando pegou o resto de caipirinha que havia sobrado no copo e passou pra uma garrafa d’água vazia, de plástico, para poder ir bebendo no caminho.

Fiquei perplexa. Dos altos dos meus 26 anos, nunca havia visto uma mulher tão inimaginável se materializar desse jeito. Jamais vou me esquecer dessa cena.

Não, não foram os olhos dele que, de perto eram muito mais bonitos. E nem a conversa, que ao vivo, era muito mais interessante. Muito menos o sorriso dele que eu passara anos vendo apenas em fotos e anúncios… O que de fato me hipnotizou, foi a mulher dele colocando o resto da caipirinha na garrafa de plástico.

Ela tinha a petulância de ser como eu! Ou pior, poderia ser eu! Quem ela pensava que era ao me comparar com a minha paixão platônica? Ao lado dele, ninguém poderia ser de carne osso.

Ela era normal ao ponto de beber um drink até o fim, com o cabelo cheio de frizz na chuva amarrado por um rabo de cavalo bem meia boca. Meio bêbada – e nem aí pra isso – e com um casaco que eu havia visto numa promoção.

E muito, muito mais real do que o próprio cara que, àquela altura, já havia deixado de ser uma paixão platônica, pra se tornar nada mais do que “o marido da fulana”.

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A segunda é minha: A classe média e a piscina

Não existe iPod no mundo que iguale mais a classe média do que a piscina do prédio.

Aqui, não há elevadores de serviço para dividir você, caro amigo que acaba de fazer a troca anual do carro popular, daquelas crianças catarrentas do 111. Ou daquele casalzinho xexelento do 702.

Não, aqui as cadeiras são as mesmas para todo mundo: Você e o gordo do 303 sentam-se lado a lado, e chegam até a se estranhar um pouco, mas logo ele pega as suas Havaianas achando que são as dele, faz uma piada dizendo que as suas estão mais acabadas, e vocês dão risada com a lata de Itaipava bombando na mão. Dele, claro. Você toma Boemia.

Aqui na piscina as bolsas térmicas da Sadia também se confundem, e não fosse pelo seu senso de observação e astúcia, aquela gorda do 801 teria levado a sua, recém-comprada, ao invés da dela, que já está com sinais do tempo.

É aqui, nesse grande tanque azul, que todo mundo se cumprimenta e pergunta “das crianças” e no dia seguinte, mal se olham na cara lá na garagem. Mas tudo bem, estamos na piscina, o local democrático do nosso condomínio. É aqui que a classe média vai ao paraíso.

Quando o domingo amanhece ensolarado, você já teme daí de cima que vai ser um dia longo. A criançada já está toda lá em baixo aos berros umas com as outras, sendo constantemente reprimidas pelas respectivas mães já besuntadas em óleo, embora seja terminantemente proibido o uso de protetor solar e bronzeador na piscina do Condomínio Ville de Bayard.

Ao longo do dia muita gente passa pela piscina, mas o número de crianças nunca diminui, apenas aumenta com o passar das horas. Exceto na hora do almoço, quando eles são obrigados a vestir o shorts e subir pra comer. Normalmente sob os berros das mães que não descem pra piscina. Nem para chamá-los. Nessa hora a cabeça pra fora da janela é muito mais eficiente, ainda que do 5º andar.

É nessa hora que você respira fundo, coloca os chinelos, toalha no ombro, Veja em baixo do braço, e desce. Procura por uma sombra, dá uma rápida passada d’olhos na gostosa do 4º andar e tropeça na cadeira dela.

Tentando se recompor, cumprimenta a todos e se encolhe no canto perto da ducha, que é o único livre. A cada 5 minutos a gostosa do 4º vai se banhar na ducha e passa mais uma demão de Banana Boat e você se esquece do pudor novamente.

Os 24 minutos em que as crianças estão almoçando são mais curtos do que a matéria de capa da Veja, e num piscar de olhos elas já estão todas lá de novo, pulando e jogando água em todo mundo, gritando e tentando afogar umas as outras. Você pensa que poderia fazer isso com facilidade, mas logo volta pro seu foco: a vizinha, digo, a Veja.

E resolve que é melhor continuar lá de cima, longe das crianças, ainda que a vista não seja tão apreciável.

Na segunda-feira, encontra todo mundo na portaria, mas se esquece de dizer bom dia. Passa pelo porteiro e comete o mesmo esquecimento corriqueiro. Falar com os vizinhos de novo, só no final de semana que vem. E se fizer sol.

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A segunda é minha. Ou pedra na vidraça dos outros é refresco

Como diz o guru da filosofia boêmia Xico Sá, “só quem tem amante na firma gosta da segunda-feira”.
Então, pra deixar a segundona gorda um pouco mais digesta, e como na firma só tem mulher, inaugurei uma nova categoria aqui: A segunda é minha. Se no resto do blog eu falo dos livros, contos e textos dos outros, aqui eu sou a vidraça e publico os meus próprios textos da madrugada.
Aceitamos pedras de todos os tamanhos, formas e cores.

Divirtam-se!

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