O ano do pensamento mágico

 

Numa noite, véspera de ano-novo, a jornalista e escritora norte-americana Joan Didion, casada há 40 anos com o também escritor John Gregory Dunne, está voltando para a casa com o marido após uma visita à filha no hospital, internada há algumas semanas com pneumonia.

Joan chega em casa, acende a lareira, faz o jantar, põe a mesa, enquanto John está sentado na poltrona lendo e tomando uma dose de whisky.

Antes que conseguissem jantar, John sofre de uma parada cardíaca. Cai sobre o prato de comida, numa cena que Joan descreve como “achei que fosse brincadeira”.

É assim, logo de cara, de supetão, que começa o “O Ano do Pensamento Mágico“, que relata, em primeira pessoa, um ano inteiro após a morte súbita do marido. Um ano em que ela desejava estar só para que ele pudesse voltar. Um ano em que ela não foi capaz de doar as roupas e sapatos favoritos dele, para que ele tivesse o que vestir quando chegasse. O ano do pensamento mágico.

Por isso, é como se ela não estivesse vivendo a realidade. Anestesiada pela dor, a autora meio que flutua pelos lugares e fatos, e narra as histórias após a morte de John usando figuras como “ouvi minha voz dizer que sim”. É como se ela simplesmente não estivesse mais lá.

Apesar da dor e da dificuldade em acreditar e aceitar o ocorrido, durante os primeiros meses após a morte de John, Joan se dedica a acompanhar a filha pelos hospitais dos Estados Unidos e ler livros sobre a doença de Quintana, a filha única que leva meses para se curar, e sobre o luto. O que fazer agora? “A vida muda rápido. A vida muda num instante. Você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”.

Com isso, a autora se mune de informações para poder passar pela fase difícil. “Em tempos difíceis, leia, aprenda, trabalhe em cima da coisa. Pesquise a literatura a respeito. Informação significa controle”. Essa foi uma das passagens que me fez refletir e querer guardar a lição pra sempre.

Mas não foi a única. Um livro sobre luto, bem escrito do jeito que é esse, nunca tem apenas uma lição pra ensinar. Outra coisa interessante que a autora conta é que “quando choramos nossas perdas, ficamos tão transtornados, que a gente chora, para o bem ou para o mal, também por nós mesmos. Pelo que nós éramos. Pelo que não somos mais”.  A dor e a autopiedade andam juntos.

Para cada detalhe que acontece, cada objeto ou coisa que Joan olha – a queda da neve, a lavanda no jardim do hospital, a comida servida – ela lembra de alguma história, de alguma passagem com o marido. E é esse o gancho que ela usa para narrar como foi viver ao lado de John até o dia 30 de dezembro de 2003, quando ele sai de casa, já sem vida, numa ambulância.

O livro é bom – e dane-se, vou usar (mais) um clichê – e é pra ler com um nó na garganta. Durante a semana que eu li, sonhei com a história, chorei me sensibilizando, me emocionando, e pior, com medo que algo parecido me acontecesse.

Acho que a única falha do livro é que, logo após a morte de John, Joan fica dividida entre o luto e os cuidados com a filha, que se arrastam por meses. De repente, a filha sai de cena, sem mais nem menos, como se ela estivesse se curado e isso não tivesse mais importância. Parece que fica um buraco. Se é que dá pra falar de buracos num livro sobre perdas.

No final, ela narra o que acontece com Quintana, mas numa breve passagem. Acho que dura um parágrafo,  se não menos.

O livro é pesado, mas por ser bem escrito, a leitura flui. Não levaria para as minhas férias, mas indico para os dias mais “normais”. É uma bela reflexão.

 

Alguns anos depois, em 2010, Joan lança mais um livro – Noites Azuis – com o desdobramento da história da filha, Quintana.Você consegue imaginar o que acontece? Aqui tem um texto lindo – “A mulher que restou”, da Eliane Brum, que, coincidentemente foi publicado hoje, no mesmo dia em que eu fiz esse post, e conta o que aconteceu na sequência.

 

 

*Editora Nova Fronteira
R$ 24,90

 

Meu pescoço é um horror

Esse é o título de um dos livros da escritora, jornalista e roteirista, Nora Ephron.

Estava à procura de um livro inteligente, mas ao mesmo tempo divertido, para dar de presente a uma amiga que fazia aniversário, e eis que surgiu essa grande publicação lá em casa (via @IvanHM).

Meu Pescoço é um Horror é um livro de ensaios da escritora que fez o roteiro de Harry & Sally, do Wood Allen, entre outros filmes. Junto com esse, veio também Não me Lembro de Mais Nada, outra coletânea incrivelmente divertida, que reúne assuntos de mulher. Mas não de mulherzinha.

Desde amantes, filhos, cremes e depilação, passando por gastronomia e amigas, os livros são um compliado de palavras inteligentes e histórias bem escritas.

Claro, lemos os dois livros, demos de presente à amiga, compramos mais, demos de presente a outra amiga, e está na minha super lista de indicações.

Depois desses dois, ainda compramos um romance dela, O Amor é Fogo, em que ela narra seu próprio divórcio, numa mistura de realidade e ficção. Mesmo com um tema difícil, o livro consegue ser engraçado. Sacadas inteligentes e bem-humoradas fazem a tragédia da separação ser algo mais leve. Típico de quem ri de si mesmo.

Indiquei pra minha mãe, que não achou tanto o Meu Pescoço engraçado e preferiu Não Me Lembro, ao contrário de mim. Mas ambos são uma boa pedida.

 

Nora Ephron faleceu em junho deste ano, aos 71 anos, de pneumonia, devido a uma leucemia. Triste triste eu só ter descoberto ela depois. Mas antes tarde <3

 

*Os três livros são da Rocco, e custam de R$ 21,50 a R$ 26,00.

Dicas de livros por Vogue Brasil

A Vogue deste mês preparou uma lista de dez livros que são “leitura obrigatória” como diz o título da matéria (assinada por Mariana Timóteo).

Como dica é sempre bom, bora dividir. Segundo a revista, esses são “os melhores livros dos últimos meses”.

Eu não li nenhum deles ainda, mas meus favoritos são Bonsai, Os Imperfeccionistas (claro), A Trama do Casamento, O Céu dos Suicidas (com um certo medo do que pode vir por aí) e A Viagem de Cem Passos (morri de vontade de dar de presente pra váááários amigos!).

 

Eterno enquanto dure

Desde Bolãno, a crítica não se empolgava tanto com um escritor chileno. Bonsai marca a estreia de Alejandro Zambra. Curtíssimo, dá pra ler numa ponte aérea – o que, no entanto, não tira o impacto da obra. “No final ela morre e ele fica sozinho”, Zambra surpreende logo na primeira frase. Assim como Bolãno, ele faz poesia em forma de prosa.

*Editora Cosac Naify, R$ 23,00

Quiz show

Roteirista de sucesso, David Nicholls virou best-seller com Um dia. Anterior, Resposta Certa só agora ganha tradução. As referências pop e o retrato da Inglaterra dos anos 80 continuam ali, assim como os ótimos diálogos. É 1985, e Brian Jackson sonha vencer um programa de perguntas e respostas na TV. A obra diverte e mostra como os ingleses são exímios na arte de rir de si mesmos.

*Editora Intrínseca, R$ 30,00

Nem tudo é verdade

O próprio Zuenir Ventura diz que vários trechos de seu primeiro romance, Sagrada Família, são autobiográficos, mas que não lembra direito o que é verdade e o que foi inventado – coisas da memória, oras. Com nostalgia e um ótimo senso de humor, ele reconstrói o Brasil dos anos 40 até um passado não muito distante por meio de uma cidade fictícia e personagens cativantes.

*Editora Alfaguara, R$ 37,00

Belo furo!

“São tão melindrosos quanto os artistas de cabaré e tão teimosos quanto operários”, é a análise dos jornalistas feita por um personagem de Os Imperfeccionistas, do inglês Tom Rachman. Cada capítulo funciona como um conto e é dedicado a um personagem de um decadente jornal de Roma. Há o freelancer de um caráter duvidoso que inventa uma matéria pra agradar aos chefes; uma redatora espirituosa que substitui o nome de Saddam Hussein por Satão Hussein; e uma editora engajada que briga por mais destaque para a África no noticiário internacional. Mesmo quem não trabalha na redação – e não sabe, portanto, o tanto de verdade ali descrito – vai se deliciar.

*Editora Record R$ 42,00

Liga da justiça

Ainda não publicado no Brasil, All My Friends Are Superheroes, do roteirista canadense Andrew Kaufman, virou hype na Europa. Nele, todos os amigos de Tom têm um quê de super-heróis: sua ex- namorada é a procrastinadora Someday; um ex-cunhado é o Sitcom Kid; e sua própria mulher é a Perfectionist. De repente – uma crise no casamento? – Tom fica invisível (só) para ela, e precisa reaparecer para convencê-la de que o amor deles vale a pena. Estranho, divertido e muito romântico

*US$ 14,00 na Amazon

Entre dois amores

O fato de ter sido escrito pelo mesmo autor de As Virgens Suicidas – transformado em filme por Sofia Coppola – e Middlesex (agraciado com o Pulitzer) não é a única credencial que faz de A trama do Casamento um ótimo livro. Nele, Madeleine, fã de Roland Barthes e romances vitorianos, tem seu amor disputado pelo gênio-louco Leonard e por Mitchell, que viaja à Índia de Madre Teresa para “ver se a bondade pega”. Além de prender o leitor, Jeffrey Eugenides consegue o que parece impossível: fazer com que se torça pelos três personagens ao mesmo tempo, com a mesma intensidade.

*Companhia das Letras, R$ 46

Dor no peito

Com O Céu dos Suicidas, o paulista Ricardo Lísias se consolida como um dos nomes mais interessantes da atual literatura nacional – posto avalizado pela última Granta, que selecionou os 20 melhores jovens escritores brasileiros. Enquanto terminava O Livro dos Mandarins, Lísias soube do suicídio de um amigo. Resolveu, então, transpor sua impotência e angústia para um novo livro, em que o personagem central, que tem o nome do autor, entra numa semiloucura quando um amigo se mata. Para ler com um nó na garganta.

*Editora Alfaguara R$ 35

 

 

 

Centro do palco

Um bem-sucedido e atormentado pintor é a ferramenta de uma investigação ácida do mundo das artes, em O Mapa e o Território. Mas o que torna a nova obra do polêmico Michel Houllebecq (autor de Plataforma) tão peculiar são seus personagens coadjuvantes – incluindo o próprio escritor. Ao leitor cabe a interpretação óbvia: a criatura é mais importante que o criador – metáfora para o hábito bem humano de não enxergar as próprias mediocridades. Ganhador do prêmio Gongcourt, o mais importante da França, o livro ainda reserva uma virada em ritmo acelerado, quando um assassinato transforma o romance em thriller policial.

*Editora Record, R$ 50

Tour gourmet

Nascido em Lisboa, naturalizado americano e criado na Suíça. O ex-editor da revista Forbes, Richard Morais, aventura-se pela gastronomia com A Viagem de Cem Passos. A história do gênio culinário Hassan Haji começa na infância de cheiros exóticos e apimentados da Índia, passa pela multicultural Londres e pelo refinamento francês. O chef-escritor-apresentador Anthony Bourdain deu a benção: “É o melhor romance ambientado no mundo da gastronomia que já li”.

*Editora Record, R$ 45,00

Próprio Umbigo

Não espere por novos Guevaras ou De Gaulles, aconselha o filósofo Luc Ferry em A Revolução do Amor. Elogiado por discutir sobre os relacionamentos do mundo contemporâneo, o livro defende que nem a fé, nem a pátria, nem os ideais movem o indivíduo atualmente; só as próprias paixões (especialmente pelos amigos e pela família).

*Editora Objetiva, R$ 45

Óleo sobre capas

Se você já pensou em escrever um livro, você faz parte das pessoas que pensam “dentro da caixa”. Muita gente pensa em fazer o mesmo. Uns fazem, outros não, algumas publicações são geniais, outras tantas não.

Mas esse artista de Los Angeles, pensou um pouco diferente. Mike Stilkey usa as capas e as lombadas de livros para pintar e criar efeitos visuais incríveis.

Passei um tempão olhando as imagens (ou seriam telas? Ou instalações?). Dá vontade de ter várias delas em casa.

Este é o site de Mike. Lá dá pra ver mais do trabalho dele. Enjoy!

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Eu acabei de ler e, diferente do começo da semana passada, essa é A dica da semana ;)

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